Perfeição em tempos de pandemia: desafios das pessoas com transtornos alimentares

por | maio 26, 2020 | Uncategorized | 0 Comentários

Anorexia Nervosa (AN), Bulimia Nervosa (BN) e o Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) são os exemplos mais frequentes dos Transtornos Alimentares, disfunções psíquicas que atingem entre 0,1 e 10% da população mundial. Levantamentos apontam que adolescentes, adultos jovens e pessoas do sexo feminino são os grupos de maior prevalência, apesar de que assistimos a um aumento dos diagnósticos de homens com estes transtornos nas últimas décadas. 

A imagem corporal negativa e a baixa autoestima são, sem dúvidas, dificuldades nucleares na vivência destas pessoas. Tais fatos podem predispor a uma recusa mórbida em ganhar peso e a magreza soar como a chave para o sucesso pessoal, afetivo e, principalmente social.

Não restam dúvidas de que a ditadura do “corpo-padrão”, caracterizado por uma noção de perfeição vinculada à pessoas magras, altas, brancas e de cabelos sedosos, influencia o estereótipo de imagem corporal difundido. Tal prerrogativa encontra nas mídias sociais grandes reforçadores: quantas mulheres gordas fazem sucesso no instagram? quantas digital influencers compartilham fotos que evidenciam suas celulites e/ou estrias?

Tais vivências configuram-se como reforçadoras do adoecimento em pessoas com transtornos alimentares que, para além da magreza do corpo físico, experimentam perdas também cognitivas, afetivas e sociais.

Muitas pessoas com BN e TCA estão, por conta das importantes medidas de distanciamento social, diuturnamente em casa e privadas, de algum modo, de algumas das estratégias outrora desenvolvidas para lidar com os impulsos de busca por comida. Ademais, tal distanciamento está gerando, em pessoas predispostas, sintomas depressivos e/ou ansiosos e distúrbios do sono e o comportamento alimentar também sofre importantes reflexos disto. 

Indo além, pessoas que não possuem BN e TCA mas que, por alguma outra causa, fazem uso de medicações psicotrópicas que favoreçam ao ganho do peso também tem enfrentado esses desafios uma vez que, não obstante, podem ser mais vulneráveis à ansiedade e, por conseguinte, reforçam o comportamento de busca pela comida. É importante salientar que nem todas as medicações psiquiátricas favorecem ao ganho de peso e que, quando o ganho de peso acontece, geralmente é como uma consequência do aumento do apetite determinado por algumas medicações (notadamente antidepressivos e antipsicóticos com algum grau de atividade em receptores 5HT2C, M3 e H1). 

Destaco a importância de se evitar o super-abastecimento das despensas (comprar apenas o contingente de alimento suficiente para um curto período de tempo, como uma ou duas semanas); evitar a compra excessiva de alimentos industrializados e/ou ultraprocessados, em detrimento de alimentos saudáveis e naturais (episódios de compulsão alimentar raramente estão ligados a estes alimentos); evitar a neurose da alimentação perfeita (lembre-se que a sua alimentação precisa ser um ato prazeroso e não te suscitar sentimentos de culpa, frustração e arrependimento); evitar a realização de dietas, especialmente as restritivas e aquelas sem orientação do profissional da nutrição (as dietas restritivas configuram-se como fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares); tentar desenvolver estratégias comportamentais de manejo  da ansiedade e do comportamento impulsivo, como a prática de atividade física ou leitura de um livro. 

Muitas pessoas com transtornos alimentares tem uma alimentação rígida e inflexível e relacionam-se com uma gama muito pequena de alimentos e marcas disponíveis no mercado. Durante o período da pandemia observa-se algum grau de desabastecimento das prateleiras dos supermercados e algumas marcas podem não estar disponíveis, resultando em menos opções e maior risco de perda de peso precipitada. 

Não obstante, pessoas de muito baixo peso com anorexia nervosa podem estar particularmente vulneráveis a COVID-19 por causa do comprometimento imunológico instalado como consequência à desnutrição. Nesse sentido, é provável que o efeito da COVID-19 seja mais profundo neste grupo do que o esperado para outras pessoas saudáveis e do mesmo grupo etário. 

Por fim, destaco a importância da manutenção da psicoterapia e dos acompanhamentos psiquiátrico e nutricional. 

Os transtornos alimentares podem funcionar, para muitos, como a ponta de um iceberg de insatisfações pessoais. A autoaceitação conduzirá ao caminho do autocuidado e do autoamor. Caso você não consiga atravessar esse caminho sozinho, peça ajuda. Certamente existe alguém que pode ajudar você.

A título de revisão, a Anorexia Nervosa geralmente desenvolve-se a partir da adoção de uma dieta com restrição de grupos alimentares e eliminação de alimentos ditos “mais calóricos”. Tal restrição alimentar aumenta progressivamente, com a diminuição do número de refeições, podendo evoluir até o jejum.  Na maioria das vezes há a percepção de uma imagem corporal distorcida, o que pode configurar-se como o Transtorno Dismórfico Corporal (falaremos dele em outro momento). Existem dois tipos de apresentação da anorexia nervosa: o restritivo e o purgativo. No primeiro, os pacientes utilizam comportamentos restritivos associados à dieta. Na anorexia tipo purgativa, no entanto, acontecem episódios de compulsão alimentar, seguidos de métodos compensatórios, como vômitos auto induzidos e o uso de laxantes e diuréticos.

Na Bulimia Nervosa, tipicamente a pessoa começa a sentir uma vontade de comer incontrolável e acaba comendo compulsivamente em episódios. Depois, sente-se culpada e até mesmo apresenta mal estar físico em razão da quantidade ingerida de alimentos, ocorrendo-lhe a idéia de induzir o vômito para não engordar. Este comportamento lhe traz satisfação e alívio momentâneos. A pessoa com BN pensa em ter descoberto a forma ideal de manter o peso sem restringir os alimentos que considera proibidos. A progressão, todavia, é perigosa. Após o vômito, surge a sensação de estar fazendo algo fora do normal. Sente-se ansioso, culpado e com piora na autoestima, o que faz retomar a dieta às vezes de forma mais intensa por acreditar erroneamente que detém o controle sobre esse processo. Ao aumentar a restrição, facilita os episódios bulímicos, piora os vômitos, a ansiedade e a auto-estima, virando um círculo vicioso.

Já o Transtorno de Compulsão Alimentar caracteriza-se pela ingestão de grande quantidade de alimentos em um período de tempo delimitado (até duas horas), acompanhado da sensação de perda de controle sobre o quê ou o quanto se come e, posteriormente, pela vivência de afetos negativos como arrependimento, culpa e remorso.  

Hoje em dia já são estudados novas formas de Transtornos Alimentares como a Ortorexia (comportamentos extremistas e exclusivos de consumo de alimentação saudável), Drunkorexia (uso deliberado do álcool como substituto de refeições), Diabulimia (evitação do uso de insulina, com a finalidade de perder peso, por pessoas com Diabetes Mellitus insulinodependente), dentre outros.

  1. Brooks SK, Webster RK, Smith LE, Woodland L, Wessely S, Greenberg N, Rubin GJ. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet. 2020 Feb;26.
  2. Wright W How Loneliness from Coronavirus Isolation Takes Its Own Toll. The New Yorker March 23, 2020. https://www.newyorker.com/news/ourcolumnists/how-loneliness-from-coronavirus-isolation-takes-its-own-toll Downloaded 8/4/2020.
  3. Shah K, Kamrai D, Mekala H, Mann B, Desai K, Patel RS. Focus on mental health during the coronavirus ( COVID-19) Pandemic: applying learnings from the past outbreaks. Cureus. 2020;12(3):e 7405. https://doi.org/10.7759/cureus.7405.